A Menina, as Borboletas e o Vento

A minha memória é bastante peculiar, dizem-na extraordinária arrancando-me risos, pois, para mim, todos trazem consigo as suas mais marcantes lembranças. Aquelas que sobressaem, que avultam-se na alma.

Comigo não faz-se distinto, tornando-me assim uma pessoa comum, com memória viva e feliz por estas lembranças, mesmo quando sofríveis.

Aos seis anos toda menina é uma princesa, uma fada, uma sereia, uma estrela. Capaz de romper mundos, barreiras, de enfrentar os mais temíveis vilões e sorrir ao fazê-lo. Eu tive seis anos e não fugi a esta regra.

 A imaginação de uma criança é fértil, imensurável. Eu, por exemplo, acreditava que as árvores do nosso Vale sentiam frio, quando “depenadas” pelo vento. Chegando ao ponto de maldizer-lhe, muitas e muitas vezes.

Era outono, época em que meu coração ingénuo e generoso, ordinário à todos nesta idade, lamentava as folhas caídas, por acreditar que as árvores sofriam por estas perdas. Muitas vezes ao perceber uma leve brisa agitar os galhos eu chorava, corria para os braços da minha avó aos prantos. Exigindo dela uma solução urgente para o porvir, pois sempre depois das brisas seguiam-se tempestades e as árvores nuas.

Não adiantava ouvir com atenção às explicações, dos meus avós, sobre “a renovação da natureza e da vida”, pois lá estavam as minhas árvores amigas, todas nuas, com frio  e a “culpa” era do vento.

Entretanto, numa tarde de domingo, o meu pai levou-nos em visita à casa de um amigo da família. Tínhamos medo dele, era áspero com as palavras, o seu timbre estava sempre acima dos demais, usava roupas escuras e um chapéu medonho, o Sr. Sven.

Mas, lá estávamos; mesmo que apavorados; eu, a minha irmã jas e o meu irmão José. Parados diante da porta dele, à espera que esta permanecesse trancada e pudéssemos voltar para casa onde estaríamos protegidos do “Velho da Capa”, Sr. Svan. Mas não aconteceu, ele surgiu sorridente, cumprimentou o meu pai e nos convidou a entrar.

Ficamos, por alguns minutos, parados, avaliando os riscos de sairmos de perto do nosso pai. Mas, como disse, criança é sempre audaciosa, valente e enfrenta todos os medos em nome de uma boa aventura ou de livrarem-se da companhia indesejável de alguém que as assombre.

Fomos saindo, um a um, como se não quiséssemos levantar suspeitas sobre nossas ações, caminhamos para fora da casa e respiramos aliviados. Estávamos livres dos “gritos” e da imagem daquela figura ímpar.

Percebemos uma porta aberta, na lateral da casa e, depois de uma longa discussão, resolvemos investigar o que ele fazia, cheios de medo adentramos, mais uma vez, na casa velha e mofada.

Ouvíamos sons de pássaros e uma música tocada ao longe, olhamo-nos e cheios de cumplicidade, subimos a escadaria de madeira que levava ao sótão.

O José desistiu na metade do caminho, por ser o mais velho levaria toda a culpa da intromissão e invasão da propriedade alheia, decerto, meu pai dar-lhe-ia castigo merecido por colocar-nos, a minha irmã e eu, em perigo. Contudo, para nós, o perigo, naquele momento rodeava o nosso pai, por estar tão próximo do Velho da Capa, comedor de gente e animais.

Quando chegamos à porta do sótão, respiramos fundo e entramos, fácil assim. A visão daquele momento é, até hoje, a cena mais forte que já vivi. O cheiro forte, a penumbra, as janelas cerradas, uma pequena escrivaninha, estantes de madeira escura atulhadas de objetos nunca dantes vistos por nós, uma mesa enorme e sobre esta, muitos livros, frascos com insetos “mortos”,

No canto, um piano tocando sozinho, como se orquestrado por um fantasma, as notas eram agudas e frias como o aquela tarde de Outono. A Jas ameaçou entoar um grito e eu abracei-a forte e disse-lhe: Eu protejo-te.

Corri até a janela e consegui afastar as cortinas, permitindo a entrada de um pouco de luz, mas, desta vez o grito partia de mim, quando olhei para o interior da sala, agora mais iluminado, e vi todas aquelas borboletas aprisionadas.

Muitas estavam mortas, ressecadas, cravadas por pequenos “pregos” sobre pedaços de madeira bem finos. Outras flutuavam em frascos cheios de um líquido que fazia os meus olhos arderem. A Jas chamou-me baixinho e apontou uma pequena gaiola onde muitas borboletas voavam desesperadas.

Não pensei, por instinto de liberdade que sempre habitou a minh’alma, abri-a e as borboletas espalharam-se pelo sótão. Corremos para a janela e conseguimos abri-la, com muito esforço.

Ahhh….esta lembrança traz-me um sorriso à alma…

As borboletas voavam em direção à luz, havia uma leve brisa que aos poucos transformava-se em um vento mais forte que ajudava-lhes no vôo, era o fim do cativeiro, estavam todas livres, naquela tarde de Domingo e nós, sorríamos felizes.

Descemos a escadaria numa velocidade assustadora, corremos para o jardim, olhávamos para o alto e víamos borboletas espalhando-se por todos os cantos. O José juntou-se a nós e sorria, pulava, aplaudia o nosso evento, chamamos: A Fuga das Borboletas, ajudadas pelo vento que tornara-se meu amigo.

Não tenho lembrança de um castigo severo por termos cometido tamanha infração, ouvi da minha avó que nós éramos crianças valentes e ganhamos doces, cookies e chocolates. O meu pai olhou-me a mim e disse: “Isso tudo só pode ser ideia sua, Isabelle.” Ele estava certo e eu sorria ao ouvir-lhe. Feliz.

Com o tempo a minha família e alguns amigos chamaram-me a mim de Farfalla. Sempre sorrio, em minh’alma por lembrar-me daquele tarde.

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Sobre isazaranza

Uma Áragon em evolução.
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